Afetar e ser afetado

a experimentação dos encontros

  • Sonia Regina Vargas Mansano Universidade Estadual de Londrina

Resumo

             Nossos corpos, conectados como estão à máquina de produção capitalista, encontram-se frequentemente de passagem (Sennett, 1998), indo e vindo pelas ruas das cidades, seja a pé, nas aventuras das bicicletas, no conforto dos carros ou nos abarrotados transportes públicos. Por que nos deslocamos tanto? Em alguma medida, para colocar em prática os pressupostos capitalistas de acúmulo e consumo. Nesses deslocamentos, por vezes desgastantes, os corpos se deparam com seus limites para estabelecer trocas sociais e afetivas, uma vez que se encontram exauridos e cansados. Parte dessa exaustão deve-se a mais complexa exploração colocada em prática pelo sistema capitalista: aquela que incide sobre a imaterialidade do trabalho e dos encontros afetivos.

               Fazendo uma diferenciação do capitalismo como produção econômica voltada para o acúmulo de lucro, Guattari e Rolnik empregaram a expressão “subjetividade capitalística” (1996) com a qual buscam caracterizar uma parte específica desse modo de produção que incorpora elementos subjetivos e os anexam à máquina produtiva. Assim, com a expressão subjetividade capitalística, os autores evidenciam o quanto o capitalismo, como regime socioeconômico, participa da produção de subjetividades de maneira a modelá-la de acordo com seus preceitos. Dizem os autores: “A produção da subjetividade pelo CMI é serializada, normalizada, centralizada em torno de uma imagem, de um consenso subjetivo referido e sobrecodificado por uma lei transcendental. Esse esquadrinhamento da subjetividade é o que permite que ela se propague, a nível da produção e do consumo das relações sociais, em todos os meios (intelectual, agrário, fabril, etc.) e em todos os pontos do planeta” (Guattari & Rolnik, 1996, p. 40).

               A onipresença da subjetividade capitalística se mostra pela maneira radical como ela participa da organização dos centros urbanos, em especial pela via do trabalho que, mais recentemente, passou a incorporar em seus cálculos os afetos, explorando-os. Nesse contexto, trabalhadores passam seus dias em encontros que exigem, cada vez mais, sua potência de afetar e ser afetado pelo outro, fato que nos faz questionar: Quais os efeitos dessa exploração afetiva? Como ela encontra seus limites? O que ela produz em termos subjetivos naqueles que são explorados? Por um lado, é notável que a potência afetiva ganhou a cena no trabalho contemporâneo, fazendo dos encontros o grande diferencial que define a sobrevivência de profissionais e empresas no mercado (Hardt & Negri, 2001). Nesse sentido, os afetos são amplamente valorizados e festejados como a nova fatia de mercado do capitalismo contemporâneo. Por outro lado, uma parte significativa dos afetos, precisamente aqueles que não se inscrevem no ideal de felicidade, satisfação e equilíbrio disseminado pelo mercado, são simplesmente “interditados” sob a pena de perder clientes, postos de trabalho ou negociações financeiras.

            Diante desse cenário, no qual é crescente a exploração dos afetos, muito ainda temos a aprender com a instigante questão colocada por Spinoza (1983) no século XVII: Afinal, o que pode um corpo? Para cartografar parcialmente as potências que se agitam na questão espinosana, vamos nos debruçar na análise de dois verbos: afetar e ser afetado. Comecemos pela potência de afetar. Esta implica a abertura para estar na presença do outro acolhendo a diferença que tanto eu quanto ele encarnamos. O afetar, nesse caso, abre o leque de possibilidades de contato, sem que estejam instaladas as interdições próprias de um regime capitalístico formatado que, previamente, esquadrinha o que pode e não pode ser vivido e sentido. Pelo verbo afetar, sensações e percepções são experimentadas para além dos órgãos dos sentidos: o corpo fica sensível ao que ainda é indizível. Já o ser afetado demanda uma espécie de vulnerabilidade ao outro. Esse outro pode ser compreendido como aquele/aquilo que vem de fora, toca e intensifica o encontro, fazendo aqueles que se encontram experimentar uma espécie de vibração que reverbera para além do já conhecido. Esse tipo de experiência, em larga medida, assusta o corpo que está aprisionado nos afetos conhecidos, podendo fazê-lo retornar aos territórios afetivos mais familiares e supostamente seguros.

            Pode-se dizer, assim, que afetar e ser afetado são potências experimentadas no limite dos encontros consigo e com os outros. Tais situações não são banais ou ordinários como a grande maioria dos encontros que vivemos no cotidiano. Nelas, algo se intensifica, causa assombro, desconserta e atualiza a possibilidade para uma espécie de problematização de si e do outro. Esta experiência só se faz possível por meio de um corpo sensível, capaz de se conectar com os riscos e tensões aí colocados. Diz Deleuze (2009, p. 126): “É preciso pensar as pessoas como pequenos pacotes de poder”. E aqui poderíamos incluir os poderes de afetar e ser afetado.

            A questão de Espinosa pode, portanto, ser desdobrada na seguinte direção: Como é possível sustentar a potência de afetar e ser afetado nos encontros? É nesse sentido que colocamos em pauta a noção de sustentabilidade afetiva (Mansano, 2016) como uma ferramenta conceitual que coopera para reconhecer e evidenciar o cansaço, a resignação, a conformação e a indiferença que marcam, de maneira tão acentuada, a vida urbana capitalística. Como ela se efetua? Onde ela está? Precisamente nas ações do cotidiano que tornam possível experimentar outros verbos além dos que já são amplamente praticados pela subjetividade capitalística como consumir, descartar, explorar e lucrar. Ela se faz presente nas iniciativas microssociais que colocam em cena outras temporalidades para a existência, diferentes das tão propagadas agendas, prazos, metas e compromissos. A sustentabilidade afetiva acolhe o ouvir, o acarinhar, o rir ou chorar junto. Trata-se de uma espécie de “perda de tempo”, sob o ponto de vista capitalístico. Mas, ela cria as condições necessárias para que o corpo sensível possa aparecer, tocar e ser tocado.

            Por fim, questionamos: Como é possível sustentar a vida se tecendo em afetos e encontros intensivos? Nessa direção, os desafios não são pequenos. Afinal, a sustentabilidade afetiva implica acordar o corpo em sua dimensão intensiva para torná-lo vulnerável às afetações, acessando novas sensações, percepções, afetos e saberes. Ela implica criar vacúolos de não comunicação, não produção e não consumo, arriscando-se no impensável e no incontrolável. Busca também sustentar a tensão gerada nessas experimentações. Antes de dizer que o contemporâneo reduz as possibilidades de sustentar e acolher os afetos em sua dimensão imponderável, cabe pensar no que está acontecendo aqui e agora, nesses dias de novembro em que um grupo de estudantes e trabalhadores da área da saúde movido pelo afeto se conecta e se encontra. Em alguma medida, este evento que agrega diálogos e experimentações de outras maneiras de viver a saúde, a cultura e a arte não seria, precisamente, um ensaio de sustentabilidade afetiva?

Publicado
2019-03-13
Como Citar
Mansano, S. (2019). Afetar e ser afetado. Encontro Nacional De Saúde, Cultura E Arte-MCA, 8(2). Recuperado de http://anais.uel.br/portal/index.php/mca8/article/view/503
Seção
Resumos