(Re) construindo-se coletivamente em negritudes para germinar humanidades

  • Jefferson Olivatto da Silva Universidade Estadual do Centro-Oeste

Resumo

            A saúde da população negra escancara de que maneira uma nação oriunda de práticas coloniais podem manter o enredo da exclusão metabolizado em práticas científicas, desconsiderando absolutamente a violência e a crueldade das relações étnico-raciais e assim perpetuar o racismo. Desta forma, nossa desconferência tem como propósito fundamentar a experiência coletiva de longa duração brasileira para produzir ambientes acolhedores em saúde plena da população negra.

            Em nossa proposição teórico-metodológica tomamos como palco o peso da história nas relações humanas brasileiras por meio do conceito de contingenciamento psíquico, aproximando os participantes da experiência étnico-racial e constituir táticas de ruptura para esse tipo de adoecimento. Para tanto faremos uma interlocução entre Psicologia Social Comunitária e Antropologia Cultural para trazer, em um primeiro momento, contextos específicos sobre a amplitude do racismo e de que maneira afeta a saúde da população negra, por meio de história de vida, debates, fóruns e dados estatísticos. Em seguida, pediremos aos participantes para que desenham, escrevam, colem e/ou pintem situações que demonstram social e historicamente o contingenciamento psíquico, para enfim expormos localmente uma produção de memorial da saúde da população negra.

            O conhecimento institucionalizado sobre saúde utilizados por profissionais da área perpetuam o silenciamento a tipos específicos de patologias. Devemos lembrar aqui que o sentido que utilizamos de patologia é seu resgate etimológico, isto é, o estudo do sofrimento. Essa volta ao sentido etimológico demonstra ser o caminho pedagógico para que se entenda outros sofrimentos e/ou adoecimentos que não são reconhecidos por sua natureza sócio-histórica racial ou subnotificados como estratégia para evitar o constrangimento epistemológico do campo da saúde, isto é, lidar com o não-saber inserido no não-fazer profissional.

            É mister que essa patologia seja entendida como social e responsável por reproduzi-lo nas dimensões do conhecimento: sua existência como efeito de exclusão de cinco séculos, a atuação de resistência social contra o extermínio, a necessária aproximação com as comunidades negras para modelar seu contexto, o compromisso com o bem-estar dessas comunidades e a implicação profissional em busca de resolução comunitária. 

            Para que haja o encadeamento desse processo de resgate, devemos lembrar que há muitos exemplos que demonstram que a resolução em conjunto é curativa, visto que sua atuação percorre seu desvelamento para o grupo e/ou comunidade. Lembramos que as consequências do esquecimento sobre o racismo não possibilitam às gerações diminuir seus efeitos nefastos. Não obstante, contra estes efeitos houve várias ações de implicação ética em busca de harmonia comunitária ou nacional: memoriais de atos de violência, memoriais de vítimas de guerra, monumentos de libertação e independência, além de poemas, músicas, filmes, seriados, camisetas, caminhadas e encontros que rompam com o silenciamento desses sofrimentos.

            Em nosso caso, essa prática tem como foco a experiência coletiva, compartilhada, em um ambiente que seja acolhedor e consiga produzir sentidos sociais a essa patologia. Observamos que em muitas situações acadêmicas, ainda é distante deste propósito a tônica de experimentar esse sofrimento de forma explícita: em um ambiente que revele a culpabilidade social de sermos grupos que geram crueldade ao mesmo tempo que acolhe diferentes respostas como desconfiança e angústia pela evidência da crueldade do racismo. Ademais, esse é o processo necessário para que a experiência coletiva seja de fato curativa; porém esse momento é o início.

            Após encadeados, nomeados e produzidos sentidos coletivos sobre os efeitos de longa duração do silenciamento, será proposto a externalização dessas crueldades como forma de reparação histórica por desenhos, frases, colagens, poemas etc. de forma coletiva e complementar. Primeiro respeitando o caráter próprio da situação vivenciada para que então haja a complementaridade dialógica desse entendimento. Por fim, conforme a possibilidade do local a exposição desse material-memorial para que todos no encontro possam experimentar o peso da história na saúde da população negra.

            Para a ocorrência da saúde plena da população negra precisamos construir a experiência coletiva e gerar corpos compartilhados, relembrando nesse processo o anúncio de Simon Mwansa Kapwepwe (1922-1980): “Podemos até perdoar mas não podemos esquecer!”

Publicado
2019-03-13
Como Citar
da Silva, J. (2019). (Re) construindo-se coletivamente em negritudes para germinar humanidades. Encontro Nacional De Saúde, Cultura E Arte-MCA, 8(2). Recuperado de http://anais.uel.br/portal/index.php/mca8/article/view/505
Seção
Resumos