A criatividade no processo saúde-doença

uma perspectiva Winnicottiana de uma experiência em dança

  • Raphael Edson Dutra Universidade Estadual de Londrina
  • Maíra Bonafé Sei Universidade Estadual de Londrina
Palavras-chave: psicanálise, processo de criação, Winnicott, dança, dinâmica saúde-doença

Resumo

Tendo em vista as possíveis interlocuções entre Arte e Saúde, objetivou-se com este trabalho compreender a dinâmica da criatividade em professores de ballet clássico. Opta-se, aqui, por apresentar uma entrevista piloto, tecendo reflexões sobre as vivências do bailarino em uma interlocução com a teoria winnicottiana. Para tanto, tomemos a vivência do entrevistado com relação à submissão ao ambiente profissional da companhia de dança como uma possibilidade de compreensão das potencialidades do verdadeiro e falso self, e sua percepção da realidade articulada ao processo saúde-doença. Ao submeter-se a uma substituição de elenco principal não adaptada para seu corpo, sua técnica e suas vivências, o entrevistado afirma que se sentiu como se estivesse “assassinando” a si mesmo. Ao tentar “assumir” a subjetividade do bailarino principal, o entrevistado passou a não sentir sua realidade como pertencente, manifestando o estado extremo do falso self, o que o levaria, em hipótese, ao adoecimento. O processo saúde-doença articula-se com a percepção criativa que os indivíduos estabelecem com a vida e com as coisas que o rodeiam. Desta forma, criar implica em decurso saudável para a vida. Em seu contraste, o adoecimento, em linhas gerais, encontrar-se-ia no estado submisso da vida individual, no qual não há possibilidades de criação, ou mesmo, se está à mercê da sombra da criatividade de outrem. As consequências psíquicas desse ato não criativo levam os indivíduos a se sujeitar à experiência de um ambiente não suficientemente bom, capaz de favorecer o sentimento de inutilidade e o não reconhecimento de seu viver criativo no campo potencial, favorecendo a manifestação do falso self e do sentir não-real da realidade, ocultando a potencialidade da criatividade e o gesto espontâneo do verdadeiro self. A experiência do bailarino nos mostra que sua percepção do não-real da realidade, sujeitada pela criatividade de outrem, o levou ao vivenciar da extremidade da ocultação do potencial criativo e do verdadeiro self, somado a um estado de submissão, que desfavoreceu uma abordagem criativa e a expressão de um gesto espontâneo.

Publicado
2018-11-08