EXPERIÊNCIA E DESLOCAMENTOS
o encontro de Marta Terezinha Godinho e Carolina Maria de Jesus nas favelas de São Paulo (1950-1960)
DOI:
https://doi.org/10.4025/shcu.v1i1.6769Palavras-chave:
São Paulo, Favela, Assistência Social, Representações, História urbanaResumo
Este texto parte do trabalho realizado em 1955 pela assistente social Marta Teresinha Godinho na favela em que a escritora Carolina Maria de Jesus viveu em São Paulo até a publicação de seu livro Quarto de Despejo (1960). Busca, nos encontros e desencontros dessas duas mulheres, e nos modos como ambas viram, viveram e narraram a favela, elementos para discutir como esse tipo de assentamento precário se constituiu como questão na cidade que se tornava a principal metrópole da América Latina. Ainda estudante, Marta visitou como estagiária da Prefeitura Municipal de São Paulo as favelas do Piqueri, da Barra Funda, da Ibicaba e do Canindé, e nesta última, encontrou uma mulher que se dizia “poetisa”. Seu relato, a partir da pesquisa que desenvolveu nas quatro favelas, permite percorrer aqueles primeiros núcleos precários e conhecer algo de suas dinâmicas e de seus moradores. Como resultado deste trabalho e tese de conclusão de curso, Marta escreveu em 1955 “O Serviço Social nas Favelas”, no qual reuniu os principais pontos da pesquisa, discutiu a pertinência da assistência social em favelas e formulou um primeiro olhar sobre seus moradores. Esta comunicação propõe uma leitura das práticas de intervenção social e das representações da experiência da favela na cidade de São Paulo nos anos 1950 e 1960 a partir da análise de relatórios técnicos e documentos institucionais relativos ao trabalho de assistência social entrelaçada às narrativas produzidas pela escritora, e publicadas em seus dois livros-diários (em 1960 e 1961). Interessa compreender como diferentes regimes de saber – o técnico-assistencial e o testemunhal-literário – produziram imagens, diagnósticos e soluções para o mesmo “problema”, notando como a experiência direta nas favelas tensiona e transforma os referenciais da intervenção social, ao deslocar saberes e reconfigurar suas práticas. Ao iluminar alguns pontos da trajetória profissional de Godinho e através dela discutir o papel de um saber técnico que produziu a favela como problema social e objeto de intervenção, ao mesmo tempo em que era transformado pela experiência concreta nesses espaços e de seus sujeitos, pretende-se também contribuir para situar São Paulo em uma história maior da questão da favela na América Latina.
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