A compreensão da violência conjugal na perspectiva psicanalítica vincular

  • Maria Gabriela Montresol Sanches Universidade Estadual de Londrina
  • Maíra Bonafé Sei Universidade Estadual de Londrina
Palavras-chave: violência conjugal, dinâmica, psicanálise

Resumo

Maria Gabriela Montresol Sanches

Maíra Bonafé Sei

 

Resumo

A violência conjugal é compreendida através de diversas perspectivas. O presente estudo procurou compreender a forma com que o fenômeno é abordado na literatura científica psicanalítica. Para tanto, foram selecionados cinco artigos disponibilizados em bases de dados científicas a fim de realizar uma breve revisão de literatura científica sobre o tema. Pode-se compreender que de maneira geral os autores entendem o fenômeno a partir da dinâmica vincular, que abrange ambos membros do casal como participantes e mantenedores de acordos intersubjetivos que mantém o fenômeno.

Palavras - chave: violência conjugal, dinâmica, psicanálise.

 

Introdução

 

A violência conjugal ganhou visibilidade a partir da eclosão de movimentos feministas. A partir de então, foram desenvolvidas intervenções a fim de conscientizar a população e principalmente as mulheres sobre a necessidade de lutar contra esses padrões impostos na sociedade patriarcalista, que como consequência gerava afetação na saúde física e mental das mulheres (Oliveira & Gomes, 2011).

 Compreende-se a violência conjugal como um evento multifatorial, assim, busca-se considerar a dinâmica do casal nas situações de violência conjugal, a qual interfere nos comportamentos e emoções vivenciados por ambos (Madalena, Carvalho & Falcke, 2018).

Para o exercício de uma conjugalidade significativa e satisfatória é importante o exercício da alteridade. Em relacionamentos conjugais em que a violência física e verbal são constantes, pode-se perceber que o espaço subjetivo é restrito, sem lugar para manifestação de desejos pessoais. De tal modo, o que acontece é a imposição de desejos de um dos membros sobre o outro (Neves, Dias & Paravidini, 2013).

Neste sentido, considera-se que o vínculo conjugal é estabelecido a partir de alianças psíquicas. Além das propriedades conscientes no estabelecimento de alianças relacionais existem processos não conhecidos denominados como inconscientes, ou seja, inacessíveis ao sujeito. No estabelecimento de alianças o sujeito identifica no outro aspectos que podem servir aos seus interesses e esse tipo de identificação com relação aos movimentos psíquicos do outro permanecem inconscientes (Kaës, 2014). Tendo em vista tal cenário, o presente trabalho tem o objetivo de compreender a maneira com que violência conjugal é abordada na perspectiva psicanalítica.

 

Método 

            Realizou-se um levantamento bibliográfico sobre a violência conjugal na perspectiva psicanalítica. Para tanto, a investigação foi realizada nas bases de dados LILACS (Literatura Latino-Americana em Ciências da Saúde), PePSIC (Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia), SciELO (Scientific Eletronic Library Online) e CLASE (Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades). A pesquisa foi feita utilizando os seguintes conjunto de descritores, que poderiam estar no título ou nos resumos: casal, violência e dinâmica; casal, violência e psicanálise. Os descritores foram selecionados com o intuito de incluir um maior número de estudos. Observou-se que muitos artigos se repetiram nas diferentes bases.          O critério de inclusão foi considerar artigos disponíveis on line que abordassem a violência conjugal na perspectiva psicanalítica.

 

Resultados e Discussão

            Para leitura e análise foram selecionados cinco estudos que se enquadraram nos critérios de inclusão. Constatou-se que a maioria dos estudos indexados não foram escritos com base no referencial psicanalítico, o que levou à exclusão dos mesmos e de estudos indisponíveis para leitura, bem como de artigos repetidos.

A análise foi feita considerando a forma como os diferentes autores abordam a dinâmica afetiva do vínculo conjugal. Desta forma foi realizado um breve apanhado teórico com base nos textos analisados sobre a forma como a violência conjugal é abordada na perspectiva psicanalítica.

 

Violência como negação da subjetividade: a compreensão do fenômeno a partir da perspectiva psicanalítica

A violência conjugal é compreendida como um processo de negação da subjetividade do indivíduo, de maneira que o eu deixa de existir e de ser reconhecido enquanto tal. Para tanto, Dias e Neves (2014) buscaram abordar em seu estudo a violência do casal como um processo dinâmico, em que os aspectos conscientes e inconscientes de ambas as individualidades constituem a relação.

Ao considerar as relações conjugais marcadas pelo investimento narcísico, Levy & Gomes (2008) entendem a violência psicológica entre os cônjuges como decorrente de um movimento sádico que busca desestruturar o narcisismo do parceiro. Desta forma, a dinâmica relacional adquire as características de  laço perverso, sendo que cada membro da relação busca se sobressair e exaltar seu próprio ego.

 As relações conjugais na contemporaneidade se estabelecem pela busca de prazer e perfeição, muitas vezes são barradas por inconformidades da vida cotidiana e ainda por resquícios de dependências arcaicas. Neste sentido, as demandas se caracterizam como contraditórias já que valoriza-se a individualidade e em contrapartida permanece o ideal de amor. É comum que o sujeito atribua ao parceiro a função de cuidado, colocando-se assim em uma condição de submissão e fragilidade ao assumir o lugar de objeto de desejo do outro (Levy & Gomes, 2008 ; Neves, Dias & Paravidini, 2013; Barrientos & Napolitano,2016).

Compreende-se o amor na psicanálise como a ilusão de encontrar no outro o objeto perdido e com ele o prazer já experimentado. Ao perceber no parceiro aspectos semelhantes ao do objeto perdido, o sujeito se lança  na relação a fim de realizar o desejo de complementaridade, de maneira que o parceiro torna-se essencial para ocupar o lugar da falta. As relações conjugais tornam-se a fonte deste preenchimento, se configurando como relações marcadas pelas idealizações e expectativas irreais (Neves, Dias & Paravidini, 2013).

            Percebe-se que além da busca de completude relacionada ao desamparo infantil, a escolha conjugal também é resultante das experiências com os genitores. Em muitos casos, as dores experienciadas no início da vida do sujeito são revividas no laço conjugal, tratando-se de repetições ao longo das gerações. Quando o indivíduo está nessa condição, ele é permeado pela impossibilidade de representações e, com isso, frequentemente não consegue refletir acerca de sua condição de perceber as motivações patológicas envolvidas neste processo (Lima & Werlang, 2011).

 

Considerações finais

A partir da breve revisão de literatura constatou-se que a violência conjugal, na perspectiva psicanalítica é compreendida pela maioria dos autores a partir da dinâmica relacional estabelecida. O casamento é concebido como depositário de ideais e ilusões, desta forma, lidar com a subjetividade real do parceiro implica em frustrações. A dinâmica violenta é instaurada quando não há na relação espaço para alteridade e manifestação subjetiva do outro.

 A condição de violência relacional muitas vezes é perpetuada dentro das diferentes gerações. Diante da impossibilidade de elaboração percebe-se esse fenômeno como cíclico, desta forma, os conflitos são revividos entre diferentes gerações e  para o mesmo sujeito. Conclui-se o estudo considerando a importância de se compreender fenômeno para além da perspectiva unilateral de gênero, já que ambos membros do casal estão implicados na trama e na manutenção do vínculo como um processo multifatorial e dinâmico, em que há a co-participação dos membros na manutenção conjugal, o que leva a refletir sobre a maior efetivação de intervenções com ambo membros do casal.

 

Referências

 

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Colossi, P. M. e Falcke, D. (2013). Gritos do silêncio: A Violência Psicológica no Casal. Psico, 44(3), 310-318, jul./set. 2013. Obtido de https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=5631422.

Dias, A. S. F. e Neves, A. S. A constituição do vínculo conjugal violento: estudo de caso. Vínculo,  São Paulo ,  v. 11, n. 1, p. 8-15, jun.  2014 .   Obtido de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-24902014000100003&lng=pt&nrm=iso.

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Kaës, R. (2014). As alianças inconscientes. São Paulo: Ideias & Letras.

Levy, L. e Gomes, I. C. Relação conjugal, violência psicológica e complementaridade fusional. Psicol. clin.,  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 2, p. 163-172,    2008.http://dx.doi.org/10.1590/S0103-56652008000200012.

Lima, G. Q. de e Werlang, B. S. G. Mulheres que sofrem violência doméstica: contribuições da psicanálise. Psicol. estud.,  Maringá ,  v. 16, n. 4, p. 511-520,  Dec.  2011.http://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722011000400002

Madalena, M., Carvalho, L. F., e Falcke, D. (2018). Violência Conjugal: O Poder Preditivo das Experiências na Família de Origem e das Características Patológicas da Personalidade. Trends in Psychology, 26(1), 75-91. https://dx.doi.org/10.9788/tp2018.1-04pt.

Neves, A. S. ; Dias, A. S. F. e PARAVIDINI, J. L. L. A psicodinâmica conjugal e a contemporaneidade. Psicol. clin.,  Rio de Janeiro ,  v. 25, n. 2, p. 73-87, jun.  2011.http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652013000200005&lng=pt&nrm=iso.

Oliveira, K. L. C., e Gomes, R. (2011). Homens e violência conjugal: uma análise de estudos brasileiros. Ciência & Saúde Coletiva, 16(5), 2401-2413. https://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232011000500009.

Publicado
2018-10-01