Omolu
de deus da varíola à senhor da terra
Keywords:
Candomblé, Omolu, históriaAbstract
A festa de candomblé é o lugar privilegiado para o historiador, que analisa esse tema, pois é “na festa de candomblé [que] acontece o transe dos deuses em relação aos quais se constrói o pensamento religioso; na festa, a identidade do grupo se manifesta (canta-se na ‘língua da nação’, veste-se de cor ou jeito tal, dança-se de dada maneira porque se é do ketu, do angola, do jeje, do fon, etc.); é na festa que toda a organização hierárquica do candomblé se apresenta; enfim, é o momento em que tudo aquilo que o grupo é e acredita, em termos de valores religiosos e estéticos, se apresentam com força total”3. Nessa dinâmica cultural, as mitologias passam então a ser alteradas cada vez que são contadas e comparadas com os hábitos sociais do momento. Aquilo que não faz sentido acaba desaparecendo e sendo substituído pelos costumes mais atuais. São, desse modo, resultado de uma memória coletiva que inconscientemente decide o que será lembrado e o que será esquecido. Desse modo, o método antropológico da história tem rigor próprio, como nos assevera Darnton4, se se entende que um “idioma geral” é o modo como classificamos e entendemos as estruturas de nossa cultura. Ao historiador deve ser possível desvendar a dimensão social do pensamento e retirar dela a significação através dos documentos e depoimentos de que tem acesso. Para realizar tal observação, fazemos, desde 2011, trabalhos em campo no Ile Ase Omi Oju Aro, um terreiro de candomblé dirigido por Sidney de Logum-edé, que foi fundado em outro município e está em Ourinhos há mais
de 30 anos. Nosso objetivo, nesse artigo, é analisar como ocorreu a incorporação desse deus, ora perseguido, ora cultuado no Daomé, ao panteão brasileiro dos orixás, uma vez que ele possui conflitos evidentes com os demais deuses. Além disso, procuramos investigar como a erradicação da varíola foi assimilada com a ressiginificação das atribuições de Omulu, destacando a dinâmica de uma religião em constante reconfiguração. Para isso, utilizamos como metodologia a análise de mitos, cantigas e filmagens que fazemos quando da visita ao terreiro. Pretendemos, com isso, enriquecer o debate sobre as metamorfoses das religiões afro-brasileiras, discutir uma
bibliografia sobre memória e história oral e evidenciar a riqueza documental presente nas práticas atuais do candomblé paulista.
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